A Polícia Federal (PF) concluiu o inquérito sobre a queda da aeronave ATR 72-500 da companhia Voepass, que resultou na morte de 62 pessoas em Vinhedo, no interior de São Paulo, em agosto de 2024. Ao todo, 16 pessoas foram indiciadas, incluindo o presidente e dono da companhia aérea, José Luís Felicio Filho. Quinze dos investigados respondem por crimes contra a segurança do transporte aéreo e um piloto foi indiciado por falsidade ideológica.
O relatório final, composto por 200 páginas, revela que a causa mecânica direta do acidente foi o mau funcionamento do dispositivo de degelo da aeronave, somado a condições climáticas adversas no dia do voo. Contudo, as investigações apontam que o fator humano decisivo foi uma rotina deliberada e sistêmica de ocultação de problemas técnicos para evitar prejuízos operacionais.
"Cultura de omissão" e pressão da diretoria
A partir do cruzamento de depoimentos, mensagens de celular e gravações da caixa-preta do avião, a PF constatou a existência de uma "cultura de omissão" enraizada na Voepass. Era prática comum que tripulações e operadores evitassem registrar panes no Livro de Bordo para impedir que as aeronaves fossem retidas e os voos cancelados em aeroportos distantes da sede.
De acordo com o inquérito, a própria diretoria da empresa exercia pressão constante sobre o setor operacional para que falhas mecânicas só fossem notificadas quando os aviões retornassem à base principal, localizada em Ribeirão Preto (SP).
Em depoimento prestado aos investigadores em 4 de agosto de 2026, o próprio José Luís Felicio Filho admitiu que tinha conhecimento prévio desse padrão de conduta irregular e que chegou a ser alertado ao longo dos anos por diretores da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC).
Conhecimento técnico e responsabilidade
A Polícia Federal destacou no documento que Felicio Filho é piloto com experiência prévia em aviação regional e profundo conhecedor dos riscos de acúmulo de gelo em aeronaves do modelo ATR. O relatório rebate a tese de que o empresário atuava como um "mero investidor" alheio às operações diárias.
O empresário também reconheceu em interrogatório que um sistema automatizado de monitoramento de dados de voo — capaz de identificar falhas recorrentes no sistema antigelo — estava apenas "nos planos" da empresa e nunca foi efetivamente implementado até a data da tragédia.
Quanto à estrutura de gestão, o inquérito indicou que o setor de segurança operacional, chefiado pelo ex-superintendente da ANAC David da Costa Faria Neto (também indiciado), atuava isolado do núcleo que exercia pressão pelo despacho das aeronaves com defeito. O próprio presidente reconheceu à polícia que "a aeronave não deveria estar naquela condição, mas também não deveria ter sido despachada para aquela rota".
Próximos passos na Justiça
O inquérito policial foi entregue ao Ministério Público Federal (MPF), que agora analisa o conjunto de provas para decidir se oferecerá denúncia formal à Justiça. Os detalhes levantados pela PF aumentam a probabilidade de que os responsáveis diretos e executivos da companhia respondam pelo crime de homicídio.
Até o momento do fechamento da reportagem, os advogados e defesas técnicas dos 16 indiciados não haviam se manifestado publicamente sobre as conclusões do relatório.
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